Em 1999 parti à aventura para o Peru e Bolívia, as fotos são, por isso, antigas e digitalizadas. Algumas estão danificadas pela humidade e pelas sucessivas mudanças de casa que a minha curta vida já me obrigou. Mas a imposição do destino obrigou-me a encontrar coragem para oferecer ao Volta ao Mundo mais um relato de viagem.
Cheguei a Lima em Junho, e a primeira sensação que tive é que tinha chegado a uma cidade demasiado horrível para ser verdade. Mas com o passar do tempo apercebi-me que a cidade, nomeadamente o centro histórico, não era assim tão feia.
Lima está, de Maio a Outubro, coberta por um espesso manto de nevoeiro que se assemelha a poluição. Este fenómeno chama-se “Garua”, e é responsável pela minha péssima impressão inicial da cidade.
O centro histórico está “recheado” de bonitos edifícios de arquitectura colonial espanhola, como o Convento de São Francisco e a Catedral.
É em Lima que estão os museus mais ricos do país, e que mostram a não menos rica cultura peruana, em particular a civilização Inca. Visitas aos Museu do Ouro Mujica Gallo e Museu Nacional de Antropologia são obrigatórias.
Os bairros de San Isidro e Miraflores são outras áreas da cidade de passagem obrigatória.
Partindo para sul, através da Estrada Pan-americana, cheguei a Ica, capital vitivinícola do Peru. Esta cidade serviu de base para visitar Nasca e Paracas.
Em pleno deserto peruano ficam as mundialmente conhecidas linhas de Nasca, datadas de 200 anos AC. Foram feitas pelo povo Nasca e são de dimensões gigantescas, sendo só claramente visíveis de avião. As linhas representam, principalmente, animais – cão, macaco, baleia, papagaio, tarântula, colibri, etc. Cada figura levou centenas de anos a concluir e foram precisas quantidades incríveis de pessoas para as fazer.
O tamanho das linhas e a sua finalidade tem sido alvo de várias especulações. A mais controversa é a que defende que esta zona seria um “aeroporto” para a aterragem de naves alienígenas – uma das figuras representa um astronauta.
Paracas é uma pequena vila de pescadores de onde partem os barcos para as Ilhas Balestras. São ilhas inabitadas e santuário de lobos marinhos, pelicanos e pinguins. Durante a viagem até às Balestras pode-se ver um gigantesco candelabro traçado numa ladeira arenosa, idêntico às linhas de Nasca.
Uma das principais actividades económicas desta zona costeira peruana é a recolha de Guano, ou seja, os excrementos das aves marinhas, para ser usado como fertilizante. Técnica usada no Peru desde o tempo dos Incas.
Regressei a Lima para apanhar um avião com destino a Arequipa – a “Cidade Branca”, dominada pelo vulcão Misti. É uma cidade muito bonita, repleta de magnificas construções dos sec. XVI e XVII, incluindo o convento de Santa Catalina.
Parti depois para Cusco, no meu primeiro voo num Fokker F28, através da Cordilheira Andina
A chegada a Cusco foi uma surpresa, não só porque esta é a mais bonita cidade do Peru, mas porque cheguei no dia da grandiosa procissão do Corpus Christi. Provavelmente a única procissão no mundo onde São Jerónimo e São Sebastião disputam uma corrida partindo de pontos opostos da cidade. Cuzco fica a mais de 3 mil metros de altitude, a respiração é difícil e andar, nem que sejam meia dúzia de passos, parece uma tarefa impossível. O sono é cortado frequentemente devido à sensação de sufoco, dormir na horizontal é muito difícil, é melhor sentado! Mas tudo é menos complicado com o chá de coca que alivia os efeitos da altitude.
Chegou finalmente o dia da grande visita a Machu Picchu. O tão ansiado momento de embarcar no comboio que me levaria através do Vale Sagrado dos Incas chegou. Em breve estaria em frente do Relógio do Sol, o Templo das Três Janelas e o Torreão Circular.
Mais um dia em Cuzco e altura para regressar ao Vale Sagrado dos Incas para visitar a Fortaleza de Ollantaytambo, a Fonte da Juventude Eterna e o mercado de Pisac.
O amanhecer de um novo dia em Cusco indicava que era altura de apanhar o Transandino que me levaria até Juliaca e Puno. Mais um importante marco desta longa viagem aproximava-se – o Lago Titicaca. Em determinadas alturas o Transandino anda tão devagar que é possível sair do comboio para esticar as pernas, fazer compras de artesanato, tirar fotografias ou simplesmente andar mais depressa que o comboio e esperar por ele na próxima estação.
Em Puno apanham-se os pequenos barcos que nos levam até às ilhas flutuantes dos índios Unos. O longo dia no Titicaca acaba com uma visita à Ilha de Taquile.
A viagem pelo Peru terminou com a travessia da fronteira com a Bolívia em Uatajata. Deixo para uma outra altura a continuação desta viagem pela Bolívia, país da Sierra Madre, de La Paz, El Alto e de Cochabamba – onde o Cristo Redentor é três metros mais alto que o do Rio de Janeiro.