Viajando pelo mundo

République du Mali

O Mali é conhecido pela quantidade e qualidade dos seus músicos, não sendo por isso de estranhar que muitos integram a chamada World Music. Um dos génios musicais, infelizmente falecido recentemente, é Ali Farka Toure, o Rei dos Blues do Deserto. Se tiverem curiosidade façam uma pesquisa, vão ficar rendidos a este verdadeiro Rei.

Mali significa, na língua Bambara, hipopótamo, um dos poucos animais associados ao continente africano que existem no país.

Os 37 graus à chegada, já no final do dia, deixavam adivinhar uma viagem complicada e muito exigente.

As peripécias começaram logo no Aeroporto (Barracão) Internacional de Bamako Senou, a aparente facilidade de obtenção do visto à chegada esbarrou com a inoperacionalidade do computador dos serviços de emigração. Ultrapassada esta questão, com uma autorização “provisória” de entrada, graças ao poder que o agente local, a Saga Tours, tem no país, seguiu-se outra trapalhada, a falta da Carta da Vacina Amarela!

Erro infantil da minha parte devido, em parte, aos dias apressados anteriores à partida. Alguma coisa tinha que ficar para trás! A vacina contra a febre-amarela é um requisito obrigatório para entrar no Mali…tudo se resolveu, novamente, com a intervenção da Saga Tours!

Bamako

A capital, Bamako, com cerca de 1.7 milhões de habitantes, é uma cidade pouco interessante, sem grandes atractivos, muito poluída e confusa! No entanto, só aqui é que podemos encontrar alguns luxos, como restaurantes com ar condicionado, cafés, hotéis dignos desse nome, supermercados e ligações de Internet fiáveis! Surpreendentemente, a TMN, através da Malitel, tem cobertura em quase todo país, mesmo nos sítios mais improváveis!

Basta menos de meio-dia para visitar os poucos pontos de interesse de Bamako:

- Museu Nacional, a não perder pela excelente exposição permanente das famosas mascaras das diversas etnias do Mali;

- Museu Muso Kuanda;

- Mercado da cidade, experiência capaz de levar qualquer um a um estado de desespero total, tal a abundância de porcaria, nojeira e mau cheiro!

- Aldeia dos Artesãos, quem gosta de artesanato não pode perder esta visita, particularmente interessante pelas peças decorativas feitas em madeira.

A bebida nacional do Mali é o chá, o de menta, exageradamente doce e que deve ser bebido por todos pelo mesmo copo. A tradição diz que, cada vez que se toma chá, ele deve ser servido por três vezes sendo, gradualmente, mais doce. Devo dizer, meus amigos, que a terceira rodada é já melaço!

Segou
Ponto de passagem a caminho de paragens mais distantes, Segou repousa tranquilamente nas margens do imponente Níger.

A região foi, nos tempos coloniais, sede do Office du Niger, organização que queria transformar toda esta vasta região numa das maiores áreas de produção de algodão do mundo.

Segou é uma cidade agradável para se ambientar e ganhar coragem para o que nos espera pelo vasto Mali ou, simplesmente, para recuperar já no regresso da grande viagem.


A cerâmica é o que mais identifica esta cidade a par dos edifícios de arquitecturas colonial e de estilo Sudanês.

Perto de Segou fica a pequena cidade de Sekoro, fundada em 1600 pela etnia Bambara, tornando-se a capital desta poderosa dinastia. A cidade mantém as suas características originais e é testemunha da importância dos Bambara no Mali moderno.

O túmulo do Rei Biton Mamary Coulibaly, fundador do império Bambara, pode ser visitado em Sekoro.

Mopti (lê-se Mohti)

A cidade de Mopti, espalhada por três ilhas, ergue-se na confluência dos Rios Níger e Bani, dando origem à alcunha de “Veneza do Mali”.

Ao imenso porto de Mopti, chegam os tradicionais barcos carregados das mais diversas mercadorias destinadas ao gigantesco mercado da cidade. Bambaras, Fullanis, Bozos, Dogons, Bobos, Tuaregues e Songhais cruzam-se numa intensa actividade comercial. Tudo se vende, compra e troca neste mercado, mas é o peixe seco que domina a quase totalidade do comércio da cidade. Aliás esta iguaria é responsável pelo cheiro característico de Mopti!

A Mesquita de Komoguel vai convidando através de uma ladainha monocórdica, cinco vezes por dia, os crentes a ajoelharem-se em direcção a Meca.

Timbuktu
Há lugares que dominam o imaginário dos viajantes, Zanzibar, Machu Picchu, Tikal, Kathmandu, Bagan, Ilha de Páscoa, Taj Mahal e, entre estes, surge Timbuktu!

Após uma longa viagem pela vastidão do Sahel e umas penosas 6 horas até ao Fleuve de Timbouctou, 47º graus brindaram a minha chegada à porta de acesso ao Sahara, a terra dos Tuaregues.

Timbuktu é de uma aridez tal, que o respirar torna-se doloroso tal a quantidade de poeira que se sente no ar.

A parte antiga da cidade está cheia de escolas corânicas e as casas dos antigos exploradores europeus e árabes foram transformados em pequenas mostras da imensa História que se cruzou por estas paragens tão desoladoras.

Regularmente chegam à cidade, após 22 dias de viagem (45 dias, ida e volta), as caravanas do sal. Duras provas ao esforço humano que os homens Tuaregues têm que se sujeitar, pelo menos 3 vezes nas suas vidas, para poderem casar. Vindas do Mediterrâneo, as caravanas de camelos trazem o sal até Timbuktu e à região do Sahel.

Rio Níger

O principal rio da Africa Ocidental, com uma extensão de 4.180 km nasce na Guiné Conakry e atravessa o Mali, o Níger, o Benin e desagua na Nigéria.

Fonte de vida, o Mali não seria nada sem este imenso canal de comunicação!

A minha subida do Níger durou cerca de 16 horas com o objectivo de acampar junto aos acampamentos temporários de pescadores Bozo no Lago Debo.

Nesta altura do ano, inicio da estação quente, o nível das águas do Níger começa a descer, criando uma oportunidade única para o Bozos pescarem com extrema facilidade quantidades incríveis de peixe que secam e transportam até ao grande mercado de Mopti.

Um pequeno desentendimento entre o guia da Saga Tours e o piloto do barco contratado criam a situação mais desconfortável da viagem.

A subida, sem paragens na ida, do Níger tinha como objectivo chegar antes do anoitecer ao Lago Debo para permitir a escolha do local do acampamento. As refeições foram confeccionadas no barco com o peixe e legumes que fomos comprando nas aldeias junto à margem do rio.

Contrariamente ao inicialmente previsto, a subida do rio foi mais difícil devido ao baixo nível das águas que obrigou a uma viagem mais cautelosa e, consequentemente, mais demorada.

A chegada ao lago já foi ao anoitecer fazendo com que o barco entrasse em águas pouco profundas e cheias de redes de pesca, impossibilitando o uso do motor.

Esta situação obrigou ao uso de estacas para fazer deslocar o barco, situação que não agradou ao piloto e, por sugestão do guia, tive que tirar as botas e saltar para a água e, supostamente, caminhar 1 hora com água pelos joelhos até à margem!

Ainda andei algumas dezenas de metros, mas depois, em francês, e como dizem os brasileiros, “rodei a baiana” e fiz um pé-de-vento no meio do lago que nem imaginam! Resumindo, o piloto voltou a pegar nas estacas e levou-nos até ao local do acampamento!

País Dogon

Começo com o cumprimento tradicional dos Dogon, uma troca de frases que se assemelha a uma música perfeitamente coordenada e melodiosa:

- Ou Seyo
- Seyo
- Oumana Seyo
- Seyo
- Guini Seyo
- Seyo
- Yana Ou Seyo
- Seyo

- YAPO! MAYNE!

Esta foi a principal razão que me levou ao Mali!

Os Dogon são uma etnia reservada, os seus rituais estão envoltos em mistério e preceitos milenares. Regras e valores há muito ditados marcam o quotidiano das gentes que se refugiaram na Escarpa de Bandiagara, fugindo às imposições islâmicas que assolavam o seu território original no oeste do Mali.

Os ritos funerários são os mais complexos, com a colocação, através de um sistema de cordas de fibra dos baobabs, dos corpos nas partes mais inacessíveis da escarpa.

As máscaras Dogon são mundialmente conhecidas, podem ver alguns exemplos de uma apresentação que assisti a Aldeia de Tireli.

O ponto alto desta visita foi a descida da Escarpa de Bandiagara em trekking, cerca de 400 metros de altura.

Espero que tenham gostado, sei que não é um destino que apele às massas, mas, acreditem, às vezes é necessário olhar para lá daquilo que está apenas à nossa frente. É preciso deixar, nem que seja por uma vez, as Caraíbas da vida e partir à descoberta do verdadeiro mundo.

 

 

 

 



O Mali é um país maravilhoso!

 

 

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